Quinze anos dela. Uma nublada sexta-feira de fevereiro pós-carnaval. São quase 5 da tarde e um mormaço dá jeito de ocupar o lugar. O lugar é ao ar livre, com mesas dispostas em forma de um losango, cada uma comportando oito cadeiras. Panos, toalhas e adereços da decoração, todos tinham um papel: combinar com os detalhes em dourado, que também era a cor do vestido da debutante. Ao centro de cada mesa um vaso cônico de vidro com bolinhas de gel verde de suporte a buquês de crisântemos em degradê, que iam de branco ao tom champagne. Mais tarde, ao apagar das luzes, esses vasos serviriam de copos.
Eu: um terno risca de giz cor azul marinho, sorriso ensaiado e um cartão no bolso. Pensei antes em flores. Só que flores é um presente pra se enviar quando não temos a oportunidade de olhar nos olhos da pessoa que se quer bem. É a tentativa de atrasar por 1 ou 2 dias os parabéns, cumprimentos e desejos de felicidade. Se misturar uma tampa de água sanitária à água do vaso pode durar mais. É um trunfo. O importante é se fazer presente antes que murchem as flores. Murchas perdem qualquer valor e despetalam no esquecimento.
Minha partida ficou pra domingo. Ela iria mais tarde, meses depois, pra outros lados. Não encaramos como uma tragédia. Também não aplaudimos, esperávamos por isso. Nunca houve ilusão de ‘lado a lado, pra todo sempre’. Ela parecia ter cabeça de mais de quinze anos. Eu, um náufrago em meus dezessete. Não tínhamos um acordo, tínhamos outras coisas: ansiedades, receios, intimidades e uma cumplicidade natural. Bastante por culpa disso sou seu companheiro de valsa hoje à noite.
Os convidados estavam dispersos. Passando pelos grupos de conversa, um a um, decidi buscar um pouco de silêncio. Sentei na murada de uma floreira, perto da entrada/saída dos garçons e copeiros. Dois minutos depois a mãe dela adentra a cozinha e volta com uma imensa bandeja de doces em minha direção. Vem exibindo seus dentes de porcelana e toda a simpatia de uma mãe no debut da filha. Vestido longo vermelho com um véu que enlaça o busto e um braço, maquiagem carregada e cabelo estático por conta do laquê. Contou-me como e com o quê cada doce foi feito. Provei alguns e pro final ela apontou uma novidade, uma trufa de chocolate meio amargo.
Lembro do dia que perguntei: “ - Tu prefere chocolate branco, preto ou meio a meio? é bom saber.. – Gosto de todos, mas prefiro chocolate preto meio amargo. E tu? se é bom saber também quero. – Vai pensar que é cópia, mas também fico com o meio amargo.” Concordamos que quando é muito doce enjoa. Ao fim da valsa, minhas mãos e olhos ainda com ela, sem nenhum intervalo de tempo começa a tocar twist and shout e todos quiseram mostrar que sabiam os passos vistos em curtindo a vida adoidado na sessão de filmes da tarde na tv. Aproveitei a hora pra deixar meu cartão na mesa de presentes.
NÓS DOIS é plural
A GENTE são dois, ou mais
EU mais TU também é NÓS
Mas é diferente... SINGULAR
felizes 15 anos! Beijos,
beijos e fica por perto.

Curti a frase:O importante é se fazer presente antes que murchem as flores.
ResponderExcluirMurchas perdem qualquer valor e despetalam no esquecimento...
O sr. escreve muito bem, parabéns... tem talento.=]
F.c.y.