domingo, 18 de novembro de 2012

Rei Jeremy, o Perverso


A lenda diz que Jeremy é eterno. Conta-se de seu lugar como um dos pupilos de Dionísio. Ao contrário da versão dita por muitos, ele não foi escolhido pelo destino. Garantiu seu cargo devido ao modo como interpretava a música. Tratava-a como suprema obra de arte.  Nos pós-noites, depois de muito vinho e bacanais, quando Dionísio não conseguia – ou simplesmente não se dava ao luxo – de escolher o repertório, Jeremy era o encarregado. Mais uma vez não foi uma escolha. (...) Foi mérito.

Em um entardecer cinzento, como não parecia haver ânimo para festa nem para os deuses, Dionísio lançou um pergunta ao pupilo. “Tu que tanto adoras o ritmo da flauta, os acordes da lira, não te envolves com a música a ponto de querer criá-la?”. Jeremy já esperava o questionamento e rebateu como nunca antes havia feito: “Mesmo dedicando a Ela minha vida, não me vejo como um iluminado com a técnica para criá-la. Isso é para os deuses”. Aqui inicia a saga de Jeremy.

Dionísio sabia estar diante de um mero mortal, mas com talento de ouvir as nuances da vida tal qual um deus. Resolvido em mudar isso, decidiu condecorá-lo com um memorável cargo terreno. A partir daquele dia seria Rei Jeremy, aquele que não permitiria a música acabar. Sabendo da tarefa difícil, pediu a Dionísio um poder para ser leal ao cargo concedido a ele. Audacioso de sua parte, mas foi atendido.

Seria imortal, mas também responsável por dar o dom da criação musical - a inspiração - para aquele que julgasse merecedor. O preço por possuir elevado poder seria de exercer sua função até perder o gosto por sua tão amada música. Passou a ser conhecido como Jeremy, o Perverso, por impedir o conjunto de ritmos e sonoros que não lhe agradasse de tocar próximo de seus ouvidos.

Muitos persistiram, mas ele conhecia sons para agradar até os deuses! Quem ousava contestar sua decisão deveria partir para longe, em busca de algum lugar inaudível para Jeremy. E assim passaram-se séculos, em que o som do “perverso” rei agradou a todos. Mas chegou a hora em que o número de pessoas sob os cuidados do Rei da Música fugiu do controle. Ele perseverou, até pouco tempo atrás, com todas suas forças, para manter o pacto feito com Dionísio.

Não sabia o que tinha acontecido com as pessoas, pareciam felizes ouvindo qualquer ruído! Sempre soube da existência dos disseminadores da discórdia, de seus muitos seguidores, mas não o intimidavam. Dionísio tinha deixado seus “herdeiros”, os verdadeiros apreciadores da arte musical.

Sem mais suportar a calúnia com seus ouvidos, confessou ter perdido o controle. Ainda encontrava, mesmo raros, talentos merecedores de seu sopro de inspiração, mas via tantos outros que nem sequer próximos chegavam de suas pretensões. Os deuses do Olympo não aceitaram se igualar a um “mortal”, mesmo com tamanho poder, e decidiram que ele teria o mesmo fim de todos iguais a ele, mortais. Jeremy abdicou de seus poderes e seguiu para o Tártaro, onde Cérbero já o aguardava, furioso, não entendendo como havia demorado tanto para chegar àquele final.

Jeremy, julgado como “o perverso”, admitiu sua derrota. Não por ter perdido o gosto pela arte, mas por pouco ouvir a verdadeira música da qual tanto gostava. É o que dizem...


(Mathilda Mother – Pink Floyd)
There was a king who ruled the land
His majesty was in command
With silver eyes, the scarlet eagle
Showers silver on the people
Oh mother, tell me more

...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

desabrochar de uma mente psicopata


Depois de um tombo, ao olhar-me dos pés à cabeça pra ver se tudo está no lugar, mesmo com uma resposta positiva, fiquei com a sensação de que algo estranho acontecia. Principalmente por causa daquelas pessoas à minha volta. As velhas senhoras parecem ter dado lugar a risonhas moças que faziam pouco caso do ocorrido. Outros olham admirados na espera de uma manifestação de dor ou exposição de ferimentos. Apenas isso, nada de ofertas de ajuda. E então é justamente um desses que se aproxima e sussurra, olhando fixamente em meus olhos: É preferível que se levante com suas próprias forças.  

Bando de abutres. Espécie típica que vive às custas da aposentadoria da mãe e faz jogo do bicho pra sobreviver. Ou apenas para não ser taxado de vagabundo e ficar a par dos papos do boteco. Quem seria ele para manifestar algum deboche? Não que fosse eu um seguidor de Narciso ou sofredor assíduo das nuances de meu ego, só penso que há ocasiões propícias para libertar aquele ódio guardado que insiste em voltar à tona. Seja pelo vizinho que finge não ter vizinhos; pela fila dos bancos no quinto dia útil de cada mês; Não dá pra esquecer também daqueles sábados que amanhecem chuvosos; daquela pilha de louça que insiste guarnecer a cozinha. Tudo inesperadamente apodera-se de todos os motivos que existem e te dão a segurança de estar tão bem armado de argumentos a ponto de fazer qualquer indivíduo tomar o lugar de uma pedra de aquário de tão insignificante.

Então um lampejo de razão surge de lugar algum. Penso em toda a educação herdada de meus pais, mesmo ciente de que lançar um bloco de concreto em direção ao mais novo inimigo pareça a opção mais justa. Melhor não. Uma aura de bondade parece tomar conta de meu ser. Brota uma desculpa fajuta pra me faz esquecer logo o evento. Se fosse outro que tivesse caído no meio fio, com a avenida lotada? Eu também não conseguiria conter o riso, tem de se admitir. Ao passar de toda essa metódica reflexão, já deu tempo de me recompor.

Com um forçado olhar de agradecimento, sinalizo que a ajuda não é necessária. E sem sequer pestanejar, retomo a passos largos o trajeto. Um indício de que o trauma da situação já está superado. O mais simples é desistir de entender como aconteceu. Em definitivo, não há explicação para aquele tombo que pareceu uma rasteira pelas costas. Nenhum daqueles rostos agora na volta conferem com os que estavam na curta memória do antes. Isso me deixa feliz.

Hora de atravessar a rua e acompanhar o fluxo. Ninguém que passe agora pode imaginar a cena de poucos metros atrás. Foi só dobrar a esquina e ver aquelas mesmas caras, surgidas de outro mundo, plantadas em frente a um Café e agora acompanhadas de mais olhares. Sem parcimônia apontam dedos em minha direção, às gargalhadas. A reação automática é de fazer a volta e fazer outro trajeto, mas as pernas travam. Algo me faz relutar e encarar o árduo caminho. A raiva guardada encontra ali novos culpados.

sexta-feira, 16 de março de 2012

meio amargo

Quinze anos dela. Uma nublada sexta-feira de fevereiro pós-carnaval. São quase 5 da tarde e um mormaço dá jeito de ocupar o lugar. O lugar é ao ar livre, com mesas dispostas em forma de um losango, cada uma comportando oito cadeiras. Panos, toalhas e adereços da decoração, todos tinham um papel: combinar com os detalhes em dourado, que também era a cor do vestido da debutante. Ao centro de cada mesa um vaso cônico de vidro com bolinhas de gel verde de suporte a buquês de crisântemos em degradê, que iam de branco ao tom champagne. Mais tarde, ao apagar das luzes, esses vasos serviriam de copos.

Eu: um terno risca de giz cor azul marinho, sorriso ensaiado e um cartão no bolso. Pensei antes em flores. Só que flores é um presente pra se enviar quando não temos a oportunidade de olhar nos olhos da pessoa que se quer bem. É a tentativa de atrasar por 1 ou 2 dias os parabéns, cumprimentos e desejos de felicidade. Se misturar uma tampa de água sanitária à água do vaso pode durar mais. É um trunfo. O importante é se fazer presente antes que murchem as flores. Murchas perdem qualquer valor e despetalam no esquecimento.

Minha partida ficou pra domingo. Ela iria mais tarde, meses depois, pra outros lados. Não encaramos como uma tragédia. Também não aplaudimos, esperávamos por isso. Nunca houve ilusão de ‘lado a lado, pra todo sempre’. Ela parecia ter cabeça de mais de quinze anos. Eu, um náufrago em meus dezessete. Não tínhamos um acordo, tínhamos outras coisas: ansiedades, receios, intimidades e uma cumplicidade natural. Bastante por culpa disso sou seu companheiro de valsa hoje à noite.

Os convidados estavam dispersos. Passando pelos grupos de conversa, um a um, decidi buscar um pouco de silêncio. Sentei na murada de uma floreira, perto da entrada/saída dos garçons e copeiros. Dois minutos depois a mãe dela adentra a cozinha e volta com uma imensa bandeja de doces em minha direção. Vem exibindo seus dentes de porcelana e toda a simpatia de uma mãe no debut da filha. Vestido longo vermelho com um véu que enlaça o busto e um braço, maquiagem carregada e cabelo estático por conta do laquê. Contou-me como e com o quê cada doce foi feito. Provei alguns e pro final ela apontou uma novidade, uma trufa de chocolate meio amargo.

Lembro do dia que perguntei: “ - Tu prefere chocolate branco, preto ou meio a meio? é bom saber.. – Gosto de todos, mas prefiro chocolate preto meio amargo. E tu? se é bom saber também quero. – Vai pensar que é cópia, mas também fico com o meio amargo.” Concordamos que quando é muito doce enjoa. Ao fim da valsa, minhas mãos e olhos ainda com ela, sem nenhum intervalo de tempo começa a tocar twist and shout e todos quiseram mostrar que sabiam os passos vistos em curtindo a vida adoidado na sessão de filmes da tarde na tv.  Aproveitei a hora pra deixar meu cartão na mesa de presentes.

NÓS DOIS é plural
A GENTE são dois, ou mais
EU mais TU também é NÓS
Mas é diferente... SINGULAR

felizes 15 anos! Beijos,
beijos e fica por perto. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

é mais tarde do que supões

Sem cúmplices eliminei meus erros. Talvez não todos, mas aqueles que julguei serem MEUS. Todo mundo sabe como eliminar os seus e cada mortal tem um jeito próprio. Não há fórmula. Eu, particularmente, joguei-os no ralo.

Possuidores de uma volúpia majestosa, adequavam-se a qualquer situação nova com que me deparasse. Pareciam galvanizados nos meus pensamentos. Eram senhores de si e usavam de argumentos fortes. Os danados atacavam com furor.

Por dias vivi o vazio sem eles. Não me sentia melhor. Aguentei no osso do peito. Quando o fiz não pensei que cometeria novos erros e que estes assumiriam o lugar dos excluídos. Parece tudo bem, mas no que vão se apoiar os próximos? E se algum for repetido como fica? Como julgar, cópia ou novo?

Sinto falta de tê-los em lembrança. Sempre à espreita, não tardavam em me visitar. Quis fazer um acerto de contas com algo que só pertencia a mim. O controle era meu! Achei que seria justo. Alguns deles nem eram meus... pelo menos não SÓ meus.

Meu consolo é a certeza de que dentro em breve formarei um novo catálogo, com novos erros.  Voltaria atrás se pudesse. Não é como ir ao cemitério, aquela amostra grátis de tons de mármore. Lá o remorso fica com as flores depois de dada as costas. Preferia-os comigo porque ainda não esqueci o que representavam. Meus erros tornaram-se eternos assombros.

(*) título copiado de um poema de Hilda Hilst, do livro Cantares.
"Lembra-te do ânimo da Terra
Que meditando a sós com seus botões
Gravou no relógio das quimeras
É mais tarde do que supões."
                                            

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ensaio de diário

Tudo que me resta é este bloco de anotações. Não é exagero, é só isso mesmo, o bloco de anotações. Não tenho geladeira, tênis, corta-unhas, nem pai nem mãe. O bom é que aqui posso fazer o que quiser. E daí que é uma festa do eu sozinho? Escrevo aqui e não vejo o tempo passar na televisão. Hoje não quero escrever histórias. Percebi que venho fazendo isso com frequência, como se aqui fosse meu diário. Talvez até seja, vamos tentar.

Querido diário,
hoje acordei pela manhã (10h30min), disposto. Saí da cama e logo encontrei meu primeiro desafio: espremer o tubo de creme dental com todo o potencial da ponta de meus polegares. Missão árdua. Consegui arrancar uma amostra de creme sabor aloe vera do tamanho de uma jujuba. Foi suficiente, deu até pra sentir meu hálito com frescor. 
Parti para a cozinha, em busca da habitual xícara de café mal passado. Depois dessa dose de acordar, saí com minha capa e cartola atrás de um jornal. A banca estava fechada e um tope negro cintilava na maçaneta. bad news. Não era a melhor coisa pra se ver de manhã. Refleti em silêncio, cabisbaixo, sentado no meio fio. Aquilo me abateu, precisava recuperar o ânimo e antes do almoço.
Cheguei ao mercado com um único propósito: petit gateau. Saí com três sacolas ocupadas por ovos, leite, manteiga, mistura para bolo petit gateau e coco. Gosto de coco. Deixei de lado a compra do jornal e voltei toda atenção aos ingredientes. Fiz uma bela escolha!

Se alguém ler isso vai pensar que é um trecho do diário do Willie Wonka. Não não não, que coisa horrível. Vamos lá, de novo, desta vez mais cru.

Buenas,
acordei de trago e nem sei onde mijei. Água, litros de água gelada, até quanto durou. Nada pra comer aqui. Vou atrás de um pastel na banca do Seu Honório. Judiado o coitado, câncer. Foram dois pastéis e um quindim. Cheguei em casa correndo pro banheiro e coloquei tudo para fora. Até aqui, um típico domingo de verão.