Depois
de um tombo, ao olhar-me dos pés à cabeça pra ver se tudo está no lugar, mesmo
com uma resposta positiva, fiquei com a sensação de que algo estranho acontecia. Principalmente
por causa daquelas pessoas à minha volta. As velhas senhoras parecem ter dado
lugar a risonhas moças que faziam pouco caso do ocorrido. Outros olham
admirados na espera de uma manifestação de dor ou exposição de ferimentos. Apenas
isso, nada de ofertas de ajuda. E então é justamente um desses que se aproxima e
sussurra, olhando fixamente em meus olhos: É
preferível que se levante com suas próprias forças.
Bando
de abutres. Espécie típica que vive às
custas da aposentadoria da mãe e faz jogo do bicho pra sobreviver. Ou apenas
para não ser taxado de vagabundo e ficar a par dos papos do boteco. Quem seria
ele para manifestar algum deboche? Não que fosse eu um seguidor de Narciso ou
sofredor assíduo das nuances de meu ego, só penso que há ocasiões propícias
para libertar aquele ódio guardado que insiste em voltar à tona. Seja pelo
vizinho que finge não ter vizinhos; pela fila dos bancos no quinto dia útil de
cada mês; Não dá pra esquecer também daqueles sábados que amanhecem chuvosos; daquela
pilha de louça que insiste guarnecer a cozinha. Tudo inesperadamente apodera-se
de todos os motivos que existem e te dão a segurança de estar tão bem armado de
argumentos a ponto de fazer qualquer indivíduo tomar o lugar de uma pedra de
aquário de tão insignificante.
Então um lampejo de razão surge de lugar algum. Penso em toda a educação herdada de
meus pais, mesmo ciente de que lançar um bloco de concreto em direção ao mais
novo inimigo pareça a opção mais justa. Melhor não. Uma aura de bondade parece
tomar conta de meu ser. Brota uma desculpa fajuta pra me faz esquecer logo o
evento. Se fosse outro que tivesse caído
no meio fio, com a avenida lotada? Eu também não conseguiria conter o riso,
tem de se admitir. Ao passar de toda essa metódica reflexão, já deu tempo de me
recompor.
Com
um forçado olhar de agradecimento, sinalizo que a ajuda não é necessária. E sem
sequer pestanejar, retomo a passos largos o trajeto. Um indício de que o trauma
da situação já está superado. O mais
simples é desistir de entender como aconteceu. Em definitivo, não há
explicação para aquele tombo que pareceu uma rasteira pelas costas. Nenhum
daqueles rostos agora na volta conferem com os que estavam na curta memória do antes. Isso me deixa feliz.
Hora
de atravessar a rua e acompanhar o fluxo. Ninguém
que passe agora pode imaginar a cena de poucos metros atrás. Foi só
dobrar a esquina e ver aquelas mesmas caras, surgidas de outro mundo, plantadas
em frente a um Café e agora acompanhadas de mais olhares. Sem parcimônia apontam
dedos em minha direção, às gargalhadas. A reação automática é de fazer a
volta e fazer outro trajeto, mas as pernas travam. Algo me faz relutar e
encarar o árduo caminho. A raiva guardada encontra ali novos culpados.
