quarta-feira, 25 de abril de 2012

desabrochar de uma mente psicopata


Depois de um tombo, ao olhar-me dos pés à cabeça pra ver se tudo está no lugar, mesmo com uma resposta positiva, fiquei com a sensação de que algo estranho acontecia. Principalmente por causa daquelas pessoas à minha volta. As velhas senhoras parecem ter dado lugar a risonhas moças que faziam pouco caso do ocorrido. Outros olham admirados na espera de uma manifestação de dor ou exposição de ferimentos. Apenas isso, nada de ofertas de ajuda. E então é justamente um desses que se aproxima e sussurra, olhando fixamente em meus olhos: É preferível que se levante com suas próprias forças.  

Bando de abutres. Espécie típica que vive às custas da aposentadoria da mãe e faz jogo do bicho pra sobreviver. Ou apenas para não ser taxado de vagabundo e ficar a par dos papos do boteco. Quem seria ele para manifestar algum deboche? Não que fosse eu um seguidor de Narciso ou sofredor assíduo das nuances de meu ego, só penso que há ocasiões propícias para libertar aquele ódio guardado que insiste em voltar à tona. Seja pelo vizinho que finge não ter vizinhos; pela fila dos bancos no quinto dia útil de cada mês; Não dá pra esquecer também daqueles sábados que amanhecem chuvosos; daquela pilha de louça que insiste guarnecer a cozinha. Tudo inesperadamente apodera-se de todos os motivos que existem e te dão a segurança de estar tão bem armado de argumentos a ponto de fazer qualquer indivíduo tomar o lugar de uma pedra de aquário de tão insignificante.

Então um lampejo de razão surge de lugar algum. Penso em toda a educação herdada de meus pais, mesmo ciente de que lançar um bloco de concreto em direção ao mais novo inimigo pareça a opção mais justa. Melhor não. Uma aura de bondade parece tomar conta de meu ser. Brota uma desculpa fajuta pra me faz esquecer logo o evento. Se fosse outro que tivesse caído no meio fio, com a avenida lotada? Eu também não conseguiria conter o riso, tem de se admitir. Ao passar de toda essa metódica reflexão, já deu tempo de me recompor.

Com um forçado olhar de agradecimento, sinalizo que a ajuda não é necessária. E sem sequer pestanejar, retomo a passos largos o trajeto. Um indício de que o trauma da situação já está superado. O mais simples é desistir de entender como aconteceu. Em definitivo, não há explicação para aquele tombo que pareceu uma rasteira pelas costas. Nenhum daqueles rostos agora na volta conferem com os que estavam na curta memória do antes. Isso me deixa feliz.

Hora de atravessar a rua e acompanhar o fluxo. Ninguém que passe agora pode imaginar a cena de poucos metros atrás. Foi só dobrar a esquina e ver aquelas mesmas caras, surgidas de outro mundo, plantadas em frente a um Café e agora acompanhadas de mais olhares. Sem parcimônia apontam dedos em minha direção, às gargalhadas. A reação automática é de fazer a volta e fazer outro trajeto, mas as pernas travam. Algo me faz relutar e encarar o árduo caminho. A raiva guardada encontra ali novos culpados.

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